Evento reúne magistrados, servidores, acadêmicos e movimentos sociais em debates sobre diversidade e ações afirmativas, com programação prevista para esta sexta (10)

446Com o objetivo de ampliar a participação social e aprofundar políticas institucionais de inclusão, especialmente voltadas para a comunidade trans, o Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (AM/RR) e o Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas (TJAM) deram início, nesta quinta-feira (9), ao 2º Ciclo pelo Orgulho e pela Diversidade no Poder Judiciário do Amazonas. Realizado no auditório da Faculdade de Tecnologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), o encontro reúne magistrados, servidores, acadêmicos e movimentos sociais em painéis que discutem o papel do Judiciário na promoção da diversidade, a inclusão de pessoas trans e a implementação de políticas afirmativas, como as cotas trans. As atividades seguem nesta sexta-feira (10), com novos debates e a construção de um manifesto interinstitucional.

O evento conta com o apoio da UEA e de diversas entidades, como o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), o Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM), a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Amazonas (OAB-AM) e a Associação dos Notários e Registradores do Amazonas (Anoreg-AM). A programação inclui ainda ações de saúde em parceria com o Grupo de Educação Comunitária da Fundação de Medicina Tropical (Educom/FMT), além de orientação jurídica especializada do Programa de Pós-Graduação em Direito da UFAM (PPGDIR/UFAM).

No início do evento, o corregedor regional do TRT-11, desembargador Alberto Bezerra de Melo, reforçou a importância da continuidade do Ciclo pelo Orgulho e pela Diversidade no enfrentamento às discriminações. “Sou muito otimista. As discriminações continuam ocorrendo mas hoje a sociedade está mais vigilante, está fiscalizando. No passado, as pessoas eram discriminadas e deixavam aquilo passar. Mas penso que já estamos evoluindo. Ainda falta mais atitude e mais conscientização também, então precisamos continuar evoluindo”, afirmou o corregedor.

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Justiça social

Nessa mesma linha, o gestor do Comitê de Equidade de Raça, Gênero e Diversidade do TRT-11, juiz do Trabalho André Fernando dos Anjos Cruz, lembrou a vocação social da Justiça do Trabalho, cuja missão vai além da solução de conflitos entre empregado e empregador, abrangendo a promoção da inclusão, a redução das desigualdades e a concretização de direitos fundamentais. “Reconhecer a justiça social significa compreender que nem todas as pessoas chegam ao sistema ocupando o mesmo lugar. Algumas enfrentam barreiras históricas decorrentes do racismo estrutural, outras convivem diariamente com preconceitos relacionados ao gênero, à orientação sexual, à identidade de gênero, à deficiência, à idade, à religião, à origem social, entre outros. Por isso, uma justiça verdadeiramente comprometida com a igualdade não pode limitar-se a tratar igualmente situações profundamente desiguais”, defendeu o magistrado.

A presidente da Comissão de Acessibilidade e Inclusão do TJAM, desembargadora Onilza Abreu Gerth, apontou o papel transformador do Judiciário na promoção da diversidade e reafirmou o compromisso da instituição com a construção de ambientes mais seguros, respeitosos e inclusivos, alinhados aos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da igualdade. “Sabemos que falar em diversidade não é apenas reconhecer diferenças, é, sobretudo, enfrentar desigualdades. E é nesse sentido que este evento se propõe a ir além do discurso, trazendo reflexões que dialogam com a realidade e com a necessidade da construção de políticas institucionais mais efetivas.”

Já o titular da 2ª Vara de Iranduba e vice-presidente da Comissão de Acessibilidade e Inclusão do Primeiro Grau no TJAM, juiz Saulo Góes Pinto, ressaltou a relevância institucional do evento para a sociedade amazônica ao enfatizar a necessidade de atenção a questões sensíveis no sistema de Justiça, com foco na população carcerária e no processo de reintegração social, além de apontar a urgência de garantir acessibilidade adequada a banheiros para mulheres.

Avanços na Justiça

A juíza auxiliar da presidência e presidente da Comissão de Prevenção e Enfrentamento do Assédio Moral, do Assédio Sexual e da Discriminação do TRE-AM, Mônica Cristina Raposo, ressaltou os avanços conquistados ao longo dos anos e a importância da perseverança diante das dificuldades. “Fui muito feliz em ver os avanços que estamos conseguindo ao longo dos anos. É um trabalho realmente de formiguinha, é difícil, há preconceito, há um olhar diferente, mas aos poucos todos vão ganhando um pouco de espaço. E isso é o que importa. O importante é não desistir, é perseverar, continuar. E há pessoas que lutam realmente por toda essa inclusão.”

Na sequência, a segunda vice-presidente da Anoreg-AM, Thaís Batista Fernandes, destacou que o evento representa um espaço fundamental para a afirmação dos direitos relacionados à diversidade e lembrou o papel essencial dos cartórios nesse processo. “Há alguns anos, a possibilidade de alteração de nome e gênero era apenas judicial; hoje, o processo está mais simplificado. Os cartórios trabalham conjuntamente, atuando em regime de delegação com o Tribunal de Justiça. Isso auxilia para que, em um tempo mais exíguo, seja possível a afirmação desse direito."

O professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da UFAM, Thiago Augusto Galeão de Azevedo, destacou a importância de fortalecer a aplicação do direito em uma lógica constitucional voltada para a igualdade, a dignidade da pessoa humana e a diversidade. “Eventos como este são muito importantes para marcar e fortalecer a aplicação do direito numa lógica constitucional de igualdade, da dignidade da pessoa humana e da diversidade.”

Apresentação e feira 

Ao final da mesa de abertura, Onça Clandestina, pseudônimo de Teresa Manicongo, travesti, escritora e multiartista manauara, apresentou uma performance poética que reforçou a arte como ferramenta de transformação e pertencimento. Ativista independente da cultura LGBTQIAPN+, ela produz zines, publicações independentes e artesanais, como Raças Transmarginais e integra o coletivo Panapaná no Amazonas.

Como parte do evento, durante os dois dias acontece a Feira Empregay, voltada ao empreendedorismo e à inclusão produtiva.

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Promoção da diversidade

No painel “O papel do sistema de Justiça na promoção da diversidade”, o juiz Saulo Góes chamou atenção para a violência estrutural e historicamente enraizada contra a população LGBTQIA+, lembrando que ela se manifesta tanto em exclusões e discriminações quanto em agressões físicas e psicológicas, muitas vezes reproduzidas dentro do sistema carcerário. Também afirmou que o sistema de justiça não pode se tornar um agravante desse cenário. “Nós não podemos fazer com que o sistema de justiça seja instrumento de agravamento dessa violência, a gente não pode permitir que isso aconteça.” Ao rebater a ideia de que o reconhecimento da diversidade seria apenas um modismo, completou: “Isso não é uma novidade, não é algo que está acontecendo só agora, não é papo de ‘lacração’; é algo que sempre existiu.”

O magistrado mencionou avanços concretos, como a garantia do tratamento de HIV e a distribuição de hormônios para mulheres trans dentro do sistema prisional, medidas que representam passos importantes na promoção da dignidade. Também trouxe à tona um desafio delicado: casos em que pessoas se autodeclaram falsamente como parte da comunidade LGBT+ para ocupar celas destinadas a esse público, chegando a usar força para se aproveitar desses espaços.

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Mesa de ativistas trans e travestis

Em uma mesa composta exclusivamente por pessoas trans e travestis, Luna Santos Leite, Clarisse Mack da Silva Campos e Rudá Gualberto Ramos, integrantes do Instituto Nacional de Juristas e Trabalhadores Trans do Sistema de Justiça (Intrajus), apresentaram o painel “Inclusão de pessoas trans no sistema de justiça”. A discussão, fundamentada no transfeminismo jurídico, abordou a necessidade de enfrentar desigualdades estruturais que atingem a população trans. Foram analisados os limites da igualdade formal, os fundamentos constitucionais para a implementação das cotas trans e os critérios de identificação por bancas de heteroidentificação. Também foram debatidos desafios práticos, como o uso fraudulento da autodeclaração no sistema prisional.

De acordo com Clarisse Mack, ao falar sobre o transfeminismo jurídico, criticou a forma como o direito foi construído ao longo da história, sendo pensado para um sujeito considerado universal, mas que não inclui as pessoas trans. “O transfeminismo jurídico propõe que as pessoas trans deixem de ser apenas objetos de estudo para se tornarem sujeitos que constroem o direito. É esse deslocamento das pessoas trans do lugar de objeto de pesquisa, do lugar de pessoas que falam sobre nós, para um lugar de 'nós falaremos por nós' e construiremos um outro direito.”

Cotas trans

Com relação às cotas para pessoas trans, Rudá Ramos argumentou que a proposta se apoia na Constituição e em tratados internacionais de direitos humanos. Ele lembrou que a chamada igualdade formal, aquela que garante direitos iguais apenas no papel, não resolve as desigualdades profundas que atingem a população trans. “O Supremo Tribunal Federal, na ADPF 186, foi categórico ao afirmar que o Estado não apenas pode, mas deve utilizar ações afirmativas para atingir grupos sociais determinados. Essas medidas não violam a igualdade. Elas a prestigiam ao atribuir vantagens temporárias para que grupos historicamente excluídos, como a população trans, superem barreiras que a igualdade formal é incapaz de remover.”

Luna Leite detalhou que as cotas trans são prioridade do movimento, escolhidas como pauta central na Conferência Nacional LGBT e no Encontro Nacional do Poder Judiciário. Ela enfatizou que a violência contra pessoas trans é estrutural e, por isso, exige respostas institucionais, não apenas medidas punitivas. Para sustentar essa proposta, apresentou dados: o Brasil é o país que mais mata pessoas trans há 18 anos; cerca de 40% das mulheres trans e travestis estão em situação de prostituição; e a presença dessa população no serviço público é mínima, com apenas 5% empregadas. Explicou que o percentual de 5% de vagas sugerido pela Intrajus não foi definido de forma aleatória.

“Por que a gente defende 5% de cotas trans enquanto a maior parte das instituições tem percentuais de 1 a 2%? Porque a política de cotas, seja racial, seja para pessoas indígenas, seja para pessoas com deficiência, não é uma correspondência exata com densidade demográfica. Nenhuma dessas políticas é assim. A gente identificou que os percentuais estabelecidos não guardam relação de correspondência entre densidade demográfica e percentual. Na verdade, o que é observado é que outros critérios, como assassinato, exclusão laboral, violência, são mais relevantes do que a densidade demográfica”, destacou Luna Leite.

A Nota Técnica da Antrajus está disponível no site e no Instagram da organização e reúne os fundamentos teóricos, jurídicos, estatísticos e técnicos para a implementação de cotas trans no Sistema de Justiça brasileiro, incluindo percentual mínimo, procedimento de heteroidentificação e medidas de permanência. Confira no link: https://zenodo.org/records/18940470

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Política Antidiscriminatória

O professor Thiago Galeão, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito da Ufam, apresentou a nova Política Antidiscriminatória da Faculdade de Direito, construída coletivamente por mais de 20 alunos das disciplinas "Corpos Marginalizados: Violação de Direitos Humanos" e "Expansão do Direito Social ao Trabalho na Amazônia", junto com a professora Carla Vidal Gontijo Almeida. Entre seus princípios estão respeito à sexualidade amazônica, interseccionalidade, cultura de paz, letramento e prevenção, além de definições sobre discriminação direta e indireta e grupos vulnerabilizados. O documento está disponível no link: https://drive.google.com/file/d/1H83UwKuRZC0XsJZz7YcL3-CowDHjl_dS/view?usp=sharing

Acesse a galeria de imagens do primeiro dia do Ciclo. 

Coordenadoria de Comunicação Social
Texto: Jonathan Ferreira
Fotos: Michael Dantas 

Iniciativa do TRT-11 alia solidariedade e sustentabilidade ao beneficiar famílias em situação de vulnerabilidade e incentivar novas doações de itens essenciais

460A solidariedade também pode ser medida pelo impacto que deixa nas pessoas e no planeta. Esse foi o propósito da campanha Vestir para Vencer, promovida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (AM/RR), por meio do Comitê de Sustentabilidade, do Laboratório de Inovação, Inteligência e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Liods) e da Seção de Gestão Socioambiental, Acessibilidade e Inclusão (Segeambi).

Nesse sentido, considerando a recente catástrofe ambiental que assolou a Venezuela e seu povo, o Comitê de Sustentabilidade, com aval e apoio da Presidência do TRT, decidiu dar nova direção às doações de roupas e calçados até então feitas: o povo da Venezuela. Assim, na tarde da última terça (8/7) foi realizada a entrega de aproximadamente 200 quilos de roupas, bolsas e calçados ao Instituto Hermanitos em Manaus, entidade que atua no acolhimento e na assistência a refugiados e migrantes, especialmente famílias venezuelanas em situação de vulnerabilidade. Representando o TRT-11, participaram da entrega o coordenador do Comitê de Sustentabilidade, juiz do Trabalho Sandro Nahmias Melo, o diretor do Liods, Hylace Braga, e o representante da Segeambi, Vicente Tino.

Solidariedade que protege o planeta
Além do alcance social, a campanha produziu impactos ambientais positivos ao incentivar a reutilização de roupas e calçados por meio da economia circular. Estudos internacionais sobre o ciclo de vida de produtos têxteis indicam que a reutilização de 200 kg de roupas pode evitar, em média, a emissão de cerca de cinco toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), gases responsáveis pelo agravamento das mudanças climáticas. Da mesma forma, milhares de litros de água deixam de ser consumidos na produção de novas peças, preservando recursos naturais e reduzindo a pressão sobre o meio ambiente. (Fonte: relatório Textiles in Europe’s Circular Economy, da EuropeanEnvironmentAgency)

“Cada roupa reaproveitada representa menos resíduos destinados aos aterros, menor demanda por matérias-primas, menor consumo de energia e menos emissões de carbono.A iniciativa demonstra que sustentabilidade e solidariedade não são conceitos distintos, mas duas dimensões de uma mesma responsabilidade institucional”, destaca Sandro Nahmias.

A campanha Vestir para Vencer do TRT-11 materializa os compromissos assumidos pelo Tribunal no âmbito do Pacto Nacional de Sustentabilidade do Poder Judiciário, demonstrando que o desenvolvimento sustentável passa, simultaneamente, pela proteção ambiental, pela inclusão social e pela valorização da dignidade humana.Ao incentivar a moda circular, o reaproveitamento de bens e o apoio às populações em situação de vulnerabilidade, o TRT-11 atua como agente de transformação social, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas.

461Nova fase da campanha
Com a entrega das roupas concluída, os Institutos Hermanitos em conjunto com a Cáritas Arquidiocesana de Manaus informaram que, neste momento, não há mais necessidade de doações de roupas, mas de itens essenciais para atender famílias desabrigadas em decorrência da atual crise humanitária. Diante deste cenário, a Presidência do TRT-11 autorizou a ampliação desta corrente de solidariedade que passa a incentivar a doação dos seguintes materiais:
• Água potável;
• Alimentos não perecíveis;
• Medicamentos e remédios;
• Fraldas;
• Absorventes;
• Materiais de higiene pessoal;
• Materiais de limpeza;
• Insumos médicos.

Os detalhes da nova fase da campanha, como pontos de coleta e tempo de duração serão informados oportunamente. A ampliação da campanha evidencia a preocupação em direcionar as doações de acordo com as necessidades reais das famílias assistidas, neste caso considerando a recente calamidade que se abateu sobre o povo venezuelano, razão pela qual a parceria com o Instituto Hermanitos tem se mostrado decisiva.

Coordenadoria de Comunicação Social
Texto: Liods, com edições da Coordcom
Foto: Liods

Saúde mental e gestão de riscos ocupacionais são temas de webinário do CNJ

445O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) realiza nesta terça-feira (7), às 14h30 (horário de Brasília), o webinário Riscos Psicossociais: Organização e Gestão do Trabalho (NR-1). A iniciativa, promovida pela Escola Nacional do Judiciário (Enaju/CNJ), reunirá especialistas para debater a aplicação da Norma Regulamentadora n. 1 (NR-1), com foco na gestão dos riscos psicossociais, na promoção da saúde mental no ambiente de trabalho e na prevenção do assédio.

Voltado a magistrados, servidores e ao público em geral, o webinário está com inscrições abertas por meio de formulário eletrônico.

A programação será aberta pela conselheira do CNJ Noemia Porto, que coordena o webinário, e contará com duas mesas temáticas. A primeira, intitulada “Organização e Gestão do Trabalho: Fatores Psicossociais e Saúde Mental” terá a participação do ergonomista e professor de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) Mário César Ferreira, que abordará a relação entre organização do trabalho e bem-estar. Em seguida, a juíza Luciana Conforti, do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região (TRT-6), tratará da NR-1 e de seus impactos nas relações de trabalho e nos processos de gestão.

A segunda mesa, Gestão dos Riscos Psicossociais: Implementação da NR-1 e Prevenção do Assédio, reunirá o juiz do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) Haroldo Dutra Dias, que falará sobre a implementação da norma e a gestão dos riscos psicossociais, e a médica e auditora fiscal do trabalho Luciana Baruki, que discutirá o assédio moral como fator de risco psicossocial.

O encerramento ficará a cargo de Thatiane Carrilho, engenheira de segurança do trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região (TRT-13).

Norma

A NR-1 (Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais – GRO) estabelece as diretrizes gerais de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), definindo direitos, deveres e responsabilidades de empregadores e trabalhadores.

A atualização mais relevante é a inclusão dos Riscos Psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). O texto também reforça a participação dos trabalhadores nas ações de prevenção, a capacitação em segurança e saúde no trabalho e a adoção de medidas voltadas à prevenção do assédio e de outras formas de violência no ambiente laboral.

Além disso, a NR-1 assegura ao trabalhador o direito de interromper suas atividades diante de situações de risco grave e iminente, bem como estabelece procedimentos para documentação, treinamento e gestão integrada da segurança e saúde no trabalho.

Assista no canal do CNJ no YouTube:

Coordenadoria de Comunicação Social
Texto e arte: CNJ

Mesmo empregadas, o grupo ainda enfrenta barreiras cotidianas, como o desrespeito ao nome social e restrição no uso de banheiros

443As pessoas transsexuais e travestis vivenciam uma profunda exclusão no campo da empregabilidade, uma vez que ainda precisam disputar o reconhecimento de sua humanidade em um processo que antecede a inserção no mercado de trabalho. Essa realidade é evidenciada por dados da ONG Transgender Europe, que em 2024 registrou 321 assassinatos de pessoas trans em 39 países, sendo 94 casos, 29,2% do total mundial, no Brasil. O dossiê elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), referente ao período de 2017 a 2025, revelou que a maioria das vítimas são travestis e mulheres trans, jovens entre 18 e 35 anos, negras e pardas.

Já a exclusão no acesso ao trabalho é evidenciada por levantamentos recentes, como mostra a enquete sobre empregabilidade trans realizada pela Antra em 2020, que apontou que 90% das mulheres trans e travestis têm na prostituição a principal fonte de renda, enquanto apenas 6% estão inseridas no mercado formal. Complementando esse quadro, a pesquisa da Plataforma To.gather, em parceria com o Fórum de Empresas e Direitos LGBTQIA+, na qual foram analisadas 289 empresas com cerca de 1,5 milhão de trabalhadores em 2024, revelou que pessoas trans ocupam somente 0,38% dos postos de trabalho.

De acordo com o estudo “A Inserção e as Características das Pessoas Trans no Assalariamento Formal”, publicado em 2025, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o cenário de desafios para a comunidade não muda mesmo quando conseguem acessar postos de trabalho, sejam eles formais ou informais. O levantamento mostrou que pessoas trans ainda enfrentam barreiras cotidianas, como o desrespeito ao nome social, a restrição no uso de banheiros de acordo com sua identidade e a desconfiança de chefes, clientes e colegas.

Considerando esse cenário atual de lutas, conquistas e retrocessos enfrentados pela população LGBTQI+ no Brasil, o Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (AM/RR) e o Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas (TJAM) promoverão, em 9 e 10 de julho, o 2° Ciclo Pelo Orgulho e Pela Diversidade no Poder Judiciário do Amazonas, das 8h às 13h, no auditório da Escola Superior de Tecnologia (EST) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), situado na avenida Darcy Vargas, zona Centro-Sul de Manaus. A programação incluirá a Feira Empregay, além de serviços voltados à saúde e orientação jurídica especializada sobre os direitos da população LGBTQI+.

De acordo com o juiz do Trabalho André Fernando dos Anjos Cruz, magistrado LGBT+ e integrante do Comitê de Equidade de Raça, Gênero e Diversidade do TRT-11, a Justiça do Trabalho busca aproximar a lei da realidade social por meio da aplicação do Protocolo Antidiscriminatório, Interseccional e Inclusivo, além de práticas que reforçam a dignidade e os direitos fundamentais. “A trajetória da população trans e travesti é marcada por sucessivas rupturas que começam na rejeição familiar, avançam pela exclusão escolar e pela marginalização social, e resultam no quase completo afastamento do mercado formal de trabalho. Nos tribunais trabalhistas, práticas como o acolhimento da pessoa antes do julgamento do processo buscam transformar o direito ao trabalho decente em uma realidade concreta e viva.”

Salário

A pesquisa do Ipea revela que, além das menores taxas de participação, pessoas trans assalariadas recebem, em média, R$ 2.707 por mês, valor 32% inferior à média nacional de R$ 3.987. A desigualdade permanece mesmo quando se considera a escolaridade; mesmo as profissionais trans com ensino superior completo ganham, em média, 27,6% menos que pessoas não trans com o mesmo nível educacional.

A desigualdade se reflete na distribuição setorial, pois mais da metade das pessoas trans empregadas formalmente está concentrada em três segmentos de atividade econômica: comércio, atividades administrativas e serviços complementares, além de alojamento e alimentação. A participação no setor público é particularmente baixa, com apenas 5,5% possuindo vínculos estatutários, proporção duas vezes menor que a registrada na população total.

O levantamento mostra ainda que desigualdades de renda e acesso se tornam mais severas para pessoas trans negras, pardas e indígenas, que apresentam rendimentos significativamente menores. Uma pessoa trans preta, por exemplo, recebe em média apenas 80% do salário de uma pessoa trans branca e chega a ganhar 26% a menos do que uma pessoa preta na população geral.444

Direitos

Já existem leis e normas que asseguram direitos importantes para quem enfrenta discriminação. Entre eles está o uso do nome social, garantido pelo Decreto nº 8.727/2016 e pelas Resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), além do direito de utilizar banheiros e vestiários de acordo com a identidade de gênero, previsto na Portaria nº 1.036/2015 do Ministério Público do Trabalho (MPT) e na Portaria nº 104/2018 da Procuradoria-Geral da República/Ministério Público da União (PGR/MPU). Também está assegurada a igualdade de acesso e permanência no emprego, conforme a Constituição Federal de 1988 e a Lei nº 9.029/1995, bem como a remuneração justa e igual por trabalho equivalente, prevista na Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU).

Há proteção contra discriminação e assédio, prevista em normas internacionais, como a Convenção nº 111 da OIT e a Convenção nº 190 da OIT. Nesse contexto, a Justiça do Trabalho vem ampliando a atuação em favor da diversidade e da inclusão. Em 2025, o Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT) anunciou a criação do Grupo de Trabalho “Justiça do Trabalho na promoção dos direitos das pessoas LGBTQIA+”, com a missão permanente de propor políticas de proteção, inclusão e promoção da diversidade sexual e de gênero. No ano de 2024, foram lançados três Protocolos de Atuação e Julgamento, entre eles o voltado à perspectiva antidiscriminatória e inclusiva. O documento orienta magistrados, servidores e advogados em casos de discriminação, enfatizando a hipervulnerabilidade das pessoas trans e recomendando procedimentos que assegurem sigilo, privacidade e respeito às vítimas.

Denúncias

No Brasil, casos de discriminação e violência contra pessoas trans e travestis podem ser denunciados em canais gerais de proteção de direitos humanos e trabalhistas, mas, antes de registrar uma ocorrência, é fundamental reunir provas que deem consistência ao relato. Mensagens, vídeos ou gravações ajudam a demonstrar a materialidade da denúncia, e, quando o episódio acontece diante de outras pessoas, é importante anotar datas e identificar testemunhas, que poderão ser ouvidas durante a investigação.

O Canal Digital de Denúncias Trabalhistas, disponível no site do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mediante identificação via Gov.br, recebe denúncias de discriminação, assédio, desigualdade salarial e outras práticas ilegais. O acesso pode ser feito diretamente pelo link oficial: denuncia.sit.trabalho.gov.br/home. Já o Disque Direitos Humanos – Disque 100 funciona 24 horas por dia e recebe denúncias anônimas de violência e discriminação pelo telefone 100, pelo WhatsApp (61) 99611-0100, ou Telegram e pelo site oficial: https://www.gov.br/pt-br/servicos/denunciar-violacao-de-direitos-humanos.

Em situações de violência contra mulheres trans, a Central de Atendimento à Mulher – 180 oferece suporte especializado pelo telefone 180, com orientação sobre leis, direitos das mulheres e serviços da rede de atendimento. Esse canal pode ser acionado via chat no WhatsApp (61) 9610-0180, e a ligação pode ser feita de qualquer lugar do Brasil. Em casos de emergência, deve ser acionada a Polícia Militar, por meio do 190.

No Amazonas, além dos canais nacionais, existem estruturas locais de atendimento presencial. A Delegacia Especializada em Ordem e Política Social (Deops), da Polícia Civil, recebe denúncias de violência e discriminação contra a população LGBTQIA+. A Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) oferece assistência jurídica gratuita para vítimas de violência e discriminação. O agendamento pode ser feito pelos telefones da capital: 129, (92) 3198-1200 e (92) 3198-1300. Também com atendimento via WhatsApp pelo número (92) 98559-1599, disponível tanto para Manaus quanto para o interior do Estado. O acesso online pode ser realizado pelo site oficial: atendimento.defensoria.am.def.br.

Coordenadoria de Comunicação Social
Texto: Jonathan Ferreira
Fotos: Banco de Imagens/Divulgação SMetal

O processo mostrou que o ex-funcionário ofendia colegas em público, até diante de gestores, usando termos como “bichinha”, “macumbeiro” e outras expressões discriminatórias

Resumo:
• Ex-funcionário da Michelin foi demitido por justa causa em Manaus após ofensas homofóbicas, transfóbicas e intolerância religiosa contra colegas, incluindo ameaças de morte;
• A decisão da 9ª Vara do Trabalho foi confirmada pela Primeira Turma do TRT-11, que reconheceu a gravidade das condutas e negou indenização pedida pelo trabalhador;
• O juiz Igo Zany determinou o envio de ofícios ao MPAM para apuração de possíveis crimes, reforçando que manifestações discriminatórias configuram atentado à ordem jurídica e justificam a justa causa.

442Um trabalhador demitido por justa causa após fazer comentários homofóbicos e discriminatórios no ambiente de trabalho e ameaçar de morte pessoas LGBTQIA+ teve a penalidade mantida pela Justiça do Trabalho. A decisão foi dada pelo juiz do Trabalho Igo Zany Nunes Corrêa, da 9ª Vara do Trabalho de Manaus, e confirmada pela Primeira Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (AM/RR), sob a relatoria do desembargador Alberto Bezerra de Melo.

Conforme consta no processo, o homem foi demitido por justa causa em fevereiro de 2024, após trabalhar por quase um ano como confeccionador de pneumáticos na empresa Michelin, em Manaus. Depois da demissão, ele entrou com ação no TRT-11 alegando que não havia justificativa para a medida, além de apontar “falta de sensibilidade” e desrespeito por parte da empresa, comportamento que teria ferido a honra dele, e ainda pediu R$ 20 mil por danos morais.

Na ação foram ouvidas testemunhas e apresentados documentos, entre eles boletins de ocorrência por LGBTfobia, que relataram que, em diversas ocasiões, o ex-funcionário fez comentários discriminatórios contra colegas gays e transsexuais. As ofensas envolviam tanto ataques à orientação sexual quanto à religião, acompanhados de críticas à presença deles no ambiente de trabalho, no refeitório e durante os intervalos, sempre em público, diante de outros funcionários, gestores e líderes da empresa.

As testemunhas relataram que, em diferentes momentos, o homem chamou colegas de “bichinha”, “macumbeiro”, “viado”, “sapatão” e afirmou que “não queria machuda e nem viado na máquina dele”. Também declarou que não aceitava a transexualidade de um colega, além de dizer que gays e lésbicas não faziam sentido para ele, chegando a ser advertido pelo gestor dele.

Segundo relatos, em alguns episódios as agressões vieram acompanhadas de ameaças de morte. Em uma ocasião, o ex-funcionário teria dito a um colega gay: “tu e essa tua cúmplice macumbeira, seu viadinho, estão mortos” e “essa macumbeira e essa bichinha vão morrer”, apontando o dedo para os trabalhadores. Conforme os depoimentos, um dos colegas ficou muito nervoso, chorou e precisou de atendimento no ambulatório da empresa após ser ameaçado. Além das ofensas homofóbicas e transfóbicas, também foram mencionadas manifestações de intolerância religiosa.

Após essas ações, a empresa aplicou a dispensa por justa causa, fundamentada no art. 482 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que trata de mau procedimento e de ato lesivo à honra ou boa fama praticado no ambiente de trabalho. No processo, a defesa da Michelin juntou documentos para demonstrar a conduta desrespeitosa, incluindo o código de ética entregue aos empregados.

Decisão

Ao analisar o caso, o juiz do Trabalho Igo Zany apontou que as provas documentais e orais mostraram que o autor praticou atos de homofobia e intolerância religiosa, condutas que podem ser enquadradas no conceito de racismo definido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ressaltando que as testemunhas da empresa foram consistentes ao relatar declarações discriminatórias e que os boletins de ocorrência registrados pelas vítimas reforçam a postura inadequada e preconceituosa do trabalhador, motivo pelo qual negou todos os pedidos do ex-funcionário e manteve a demissão por justa causa.

“Restou demonstrado que a conduta do obreiro foi preordenada de agressão psicológica e manifestamente contrária às normas empresariais, legais e sociais de harmonia e boa convivência no ambiente de trabalho, grave o bastante para aplicação da justa causa”, apontou o magistrado. “Manifestações discriminatórias e homofóbicas no ambiente de trabalho consubstanciam discurso que deprecia e desqualifica pessoas, atingindo moralmente terceiros que com ela trabalham e configurando atentado à ordem jurídica, ao dever de urbanidade no convívio social e à fidúcia depositada pelo empregador”, acrescentou.

Na sentença, o magistrado também decidiu pela expedição de ofícios e determinou o envio de documento ao Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM) para investigar possíveis crimes cometidos pelo ex-funcionário, ressaltando que a medida deveria ser cumprida com rigor. A defesa, por sua vez, recorreu ao segundo grau para tentar reformar a decisão, mas, por unanimidade, a Primeira Turma do TRT-11, sob relatoria do desembargador Alberto Bezerra de Melo, negou o pedido e manteve integralmente a decisão de primeira instância.

Ciclo Pelo Orgulho e Pela Diversidade

Considerando o cenário de lutas, conquistas e retrocessos enfrentados pela população LGBTQI+ no Brasil, o Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (AM/RR) e o Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas (TJAM) promoverão, em 9 e 10 de julho, o 2° Ciclo Pelo Orgulho e Pela Diversidade no Poder Judiciário do Amazonas, das 8h às 13h, no auditório da Escola Superior de Tecnologia (EST) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), situado na avenida Darcy Vargas, zona Centro-Sul de Manaus. A programação incluirá a Feira Empregay, além de serviços voltados à saúde e orientação jurídica especializada sobre os direitos da população LGBTQI+. Saiba mais AQUI.

Coordenadoria de Comunicação Social
Texto: Jonathan Ferreira
Foto: Banco de Imagens

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